quinta-feira, setembro 14

Decrescendo





Há alguns meses a minha irmã disse-me que​ eu "tinha" que ler um romance não publicado, um livro escrito na língua de Shakespeare. Apesar de ser uma leitora ávida e bastante ecléctica não é frequente ver-lhe o entusiasmo com que me falou deste escritor, um Irlandês apaixonado por Lisboa... um homem sui generis.
Levei semanas a pegar no livro e nas primeiras linhas cheguei a pensar que a admiração pessoal poderia ter influído na reacção entusiástica da minha irmã mais velha.
Mas quando dei por mim estava a passar as páginas com uma sensação há muito perdida, a sensação de estar perante algo diferente, um raciocínio inovador, uma escrita "própria".
Gerry Brennan escreveu o seu romance "Decrescendo" com a profundidade de um conhecedor e grande amante da palavra escrita. Nele, um fluxo poético encantatório e uma sensibilidade subtil são frequentemente desmontados ou completados por um sarcasmo mordaz e inteligente; conseguindo manter uma narrativa coerente​ entre-cruzada com uma miríade de textos apenas aparentemente não interconectados.
Ao sermos confrontados  com os fantasmas da nossa cultura judaico-cristã revisitamos momentos chave da história, da política e da filosofia ocidentais do século XX em textos por vezes teatralizáveis plenos de humor. Aqui, a dor essencial da nossa mortalidade é-nos devolvida num jogo de espelhos e surpreendemo-nos emocionados ao ser tocados pela sensibilidade delicada de quem nasceu poeta.
Como um vinho precioso, este livro quando o saboreei lentamente depois de o deixar respirar revelou-se singular.
Soube agora que "Decrescendo" se publica em Nova Yorque pela editora Pski's Porch  e espero que brevemente possamos lê-lo numa tradução que lhe faça justiça na língua de Camões.

Jaime Bulhosa

sexta-feira, agosto 4

Calma Cristo, Calma!


Dentro de um livro antigo encontramos um teste de História de um aluno do liceu. O aluno respondia assim a uma das perguntas do professor sobre o aparecimento do cristianismo:

Foi o anjo Gabriello quem anunciou à Virgem Maria que seria a mãe de Jesus. Em seguida, ela entrou numa clínica para sofrer a intervenção do Espírito Santo.
Os magos levaram à sagrada Família ouro, incenso e uma garrafa de mira. Mas Herodes queria matar o menino Jesus; então S. José levou imediatamente todos num «Jeep».
Voltaram depois a Jerusalém, onde Jesus se perdeu. Para o encontrar, S. José prometeu queimar uma vela a Santo António.
Jesus foi baptizado por S. João Baptista. Este alimentava-se de gafanhotos: era o maior insecticida do deserto.
Mais tarde, Jesus teve discípulos, entre os quais Simão-Pedro, que era um pescador invertebrado. Jesus foi crucificado entre dois ladrões. Quando ressuscitou, apareceu primeiro às mulheres, para a notícia se espalhar mais depressa. Fora vendido por Judas por trinta dólares.
Os primeiros cristãos foram atrozmente perseguidos; por exemplo, Blandina foi levada aos toiros.
Os papas sempre viveram em Roma. São celibatários de pais a filhos. O primeiro chamava-se Rómulo.

sexta-feira, julho 14

A nosso jarra de flores



Ele deu-lhe dez flores, nove eram de verdade e uma delas feita de papel de um livro. Então o rapaz disse: "Eu vou amar-te, até que a última delas morra..."

Autor desconhecido

quarta-feira, julho 12

Um grande problema


Estava o dia a correr sem problemas na livraria. Um daqueles dias em que não se aprende muito. A rotina e o tédio tomavam conta de mim, quando entra um cliente que pergunta:

- Será que me podia informar se tem um livro que me ajude a resolver o meu problema?
O livreiro está habituado a resolver os problemas dos clientes, razão pela qual não estranhou a pergunta:
- Com certeza. Já agora, não me leve a mal. Qual é exactamente o seu problema?
- Pois, aí é que está o busílis. – Afirma o cliente encolhendo os ombros em sinal de frustração, enquanto prossegue – Não consigo, acredite em mim e com toda a honestidade, dizer-lhe qual o meu problema.
Agora o livreiro começa, verdadeiramente, a prestar atenção ao problema.
- Como assim, não me pode dizer qual o seu problema!?… Como poderei ajudá-lo se não me disser qual é o seu problema?
O cliente, meio atrapalhado, responde:
- É como lhe digo. Contudo, consigo soletrar devagar o título do livro com o meu problema.
- Bem, sendo assim, venha daí o título soletrado – diz o livreiro, já com alguma falta de paciência.
- Então cá vai, mas é melhor tomar nota. O título do livro tem as seguintes letras: H I P O P O T O M O S T R O S E S Q U I P E D A L I O F O B I A.
- Como!?... Está a gozar comigo? Hipopotomonstrosesquipedaliofobia – Diz o livreiro a enrolar a língua e a gaguejar por todos os lados, ruborizando enquanto tenta pronunciar a palavra.
O cliente, vendo tanta atrapalhação, faz uma expressão de sincera compreensão e diz com compaixão  ao livreiro:
- Ah, vê! Você também sofre do mesmo problema. É uma chatice, na verdade, não é?


Nota: Hipopotomonstrosesquipedaliofobia é uma palavra inventada como uma brincadeira que, por se ter tornado relativamente conhecida e divulgada, acabou por ser tomada como séria por muitas pessoas que não conhecem a sua origem. A hipopotomonstrosesquipedaliofobia é um distúrbio que se caracteriza pelo medo irracional (ou fobia) de se pronunciar palavras grandes ou complicadas.

Jaime Bulhosa

quinta-feira, julho 6

Prateleira de livreiros


Não sei que idade teria quando entrei pela primeira vez numa livraria, mas sei que foi pela mão do meu pai. Era o seu passatempo favorito: ir por Lisboa errando, de livraria em livraria. E eu, tentando acompanhar os seus passos gigantes, corria ao lado dele, enquanto ele me explicava que existiam livrarias que eram «cemitérios de palavras cheias de teias de aranha que se eternizam nos cantos dos móveis». Outras havia em que «as palavras se envergonhavam e onde poderíamos encontrar de costas voltadas, para que não fossem reconhecidos, Shakespeare e Goethe». Nalgumas livrarias seríamos bem-vindos, noutras o meu pai sabia que não iria encontrar nada que lhe interessasse e que seríamos observados com ar aborrecido. Havia ainda outras onde alguns livros gritariam: «Socorro, tirem-me daqui!» Mas todas elas tinham um nome para além do seu nome: o nome do livreiro que lá estava. A livraria do senhor Vicente, a do senhor Barata, a do senhor Braga, a do senhor Armando, a do senhor Nuno de Cascais. Hoje ainda temos livrarias com nome, ainda que sejam quase todas do "monsieur" Fnac ou Bertrand...

Jaime Bulhosa

sábado, março 11

Março, mês da poesia


ESPELHO DO CARRASCO

Dizes  tu que és poeta?

De onde vens? Sinto a tua pele
      lisa e doce

Carrasco, ouves-me?

Presenteei-te com a sua cabeça
Leva-a e traz-me a pele
Que esteja intacta
A pele é para mim o mais desejável
O mais caro, o mais belo

A tua pele ser-me-á tapete
Será do mais fino veludo

Disseste que és poeta?

ADONIS
in   O Arco- Ìris do Instante -  Antologia poética
Introdução, selecção e tradução de
Nuno Júdice
 Dom Quixote, 2016



sexta-feira, fevereiro 17

O sexo vende mais

Toda a gente sabe que os livros se vendem, muitas vezes, por impulso. O conteúdo pouco importa, o que conta são as capas e não há nada como colocar uma «pequena» sugestão sexual, muito imperceptível ou talvez sem «querer», para que o sucesso de vendas seja garantido. Ora, é aqui que está o senão da questão… rapidamente se resvala para o mau gosto ou não!?...


Segue uma lista de livros para ilustrar o que digo e atenção a alguns títulos:  










terça-feira, fevereiro 7

Deus é cultura


O facto de se trabalhar com livros pode transmitir, erradamente, a ideia de que um livreiro deve ter resposta para tudo e o pior é o próprio acreditar que isso é verdade.


- Por favor, posso fazer-lhe uma pergunta? Como trabalha com livros deve ler muito, não é?

- Uhmm! Sim… mais ou menos.


- Então diga-me, conhece o afresco «A Criação de Adão», de Miguel Ângelo, da Capela Sistina?

- Sim, já lá estive.

- E já reparou que do lado esquerdo da pintura se encontra Adão?

- Sim!?...

- Por isso, já reparou que Adão tem umbigo?... Ora, sendo ele o primeiro homem a ser criado, não devia ter umbigo, porque não nasceu de nenhuma mulher. Não acha? Aliás, o próprio Miguel Ângelo, na altura, colocou essa mesma questão à Igreja.

- Uhmm, bem, não sei…

- Também deve ter reparado que do lado direito da pintura se encontram, Deus, Eva, alguns anjos dentro de um manto que representa um cérebro humano. Será que Miguel Ângelo quis dizer que Deus é apenas uma invenção do nosso cérebro?

- Pois… Talvez!?...

- Deve estar, agora, preparado para me responder a mais esta pergunta: A imortalidade de Deus é uma consequência inevitável da sua própria condição de Deus, ou uma opção?

- Ah! Essa eu sei! Só pode ser consequência, senão há muito que Ele teria morrido de tédio, não acha?


Jaime Bulhosa

terça-feira, janeiro 24

Obra-prima




Todo o escritor sabe que o seu maior desígnio é escrever uma obra-prima. Mas também sabe que uma vez escrita a sua vida estará cumprida. É por esse motivo que os escritores retardam ao máximo a sua publicação. E é só por isso e por mais nenhuma razão que, na sua grande maioria, jamais chegam a publicar uma.

Livreiro anónimo à procura do que escrever

quinta-feira, janeiro 19

Escritores há muitos


Tenho por hábito espreitar no facebook textos de pessoas que gostam de escrever, contos, pensamentos, etc. Leio algumas frases só para ver se me convencem. A maior parte das vezes, infelizmente ou felizmente, choro de rir com algumas frases escritas e tomo nota. Já vão perceber porquê. Eis alguns exemplos:



«Voltou da guerra com uma perna que tinha perdido.»

 «O velho camponês era cego: mas, apesar disso, compreendia perfeitamente o português.»

«Desceu quatro a quatro os três degraus da escada.»

«Os futuros esposos ficaram fixados durante quinze dias à porta da repartição do Registo Civil.»

«Sob o véu, a noiva tinha um ar quase virgem.»

«A minha prima Sofia é muito gentil, desde que lhe façam todas as vontadinhas.»

«Ernesto é canhoto. Sem dúvida Ernesto serve-se das xícaras com as asas do lado esquerdo, inventadas por Afonso Allais para canhotos.»

«Um peixe gemia na extremidade da linha.»

«Minha avó vive sozinha no campo. Possui uma galinha e um cão. Em cima dum banco cacareja todo o dia.»

«O peixe voador, encharcado em água, caiu no barco com ruído seco.»


«Após a morte, os cadáveres podem ser enterrados ou incinerados. Aqueles que não gostarem disso podem ser imortalizados.»

Jaime Bulhosa

terça-feira, janeiro 17

Você pode escrever um livro e eu também


Se julga que escrever um romance é difícil e é só para alguns predestinados, engana-se! Escrever um livro está agora ao alcance de todos. Olhe à sua volta e repare na quantidade de gente que anda por aí a escrever livros. É porque não é difícil... Não sabe como eles conseguem? Então eu digo-lhe. Escreva no Youtube a frase «How to write a book» e já está. Terá à sua disposição dezenas e dezenas de vídeos cheios de dicas acerca de como escrever um livro. E não são truques para escrever apenas um livro qualquer. São para escrever um verdadeiro «bestseller», claro! Escusado será dizer que, para escrever um «bestseller», vai ter de pagar o curso completo. Mas o que é isso comparado com os benefícios que a tarefa pode significar?

Todos estes vídeos têm uma coisa em comum: são todos da responsabilidade de escritores famosos e todos eles foram galardoados no mínimo com o Booker Prize. Não acredita? Basta reparar em nomes como por exemplo… Agora de repente não me lembro de nenhum, mas sei que são todos muito conhecidos.

Os vídeos começam quase sempre por dizer que para escrever um livro é necessário ter uma ideia. Ora isso é facílimo. Eu, por exemplo, farto-me de ter ideias, ainda que normalmente só dêem para 500 caracteres e, no melhor dos casos, para escrever um post num blogue. Mas quantos livros não nascem de blogues? Ah, pois… Convém é que seja de um bom bloguer, não é?… Mas não desanimemos!
Depois da ideia, temos de construir as personagens. Isto também não é difícil. Pense por exemplo em pessoas que conhece: os seus vizinhos e familiares, ou então em pessoas conhecidas, figuras públicas. Mude-lhes o nome e já está. Se faz questão de escrever mesmo um «bestseller», então vai ter de construir as suas próprias personagens, sobretudo as femininas, dotadas de grande carga psicológica e avidamente sofredoras por causa dos homens belos, encantadores, ricos e pérfidos como as cobras. Sucesso garantido, dizem eles… os tipos dos vídeos.

Alguns destes vídeos, poucos, também dizem que convém, quando se pretende escrever um romance, ter-se lido alguns. Pois isto é que me lixou! Porque fui à procura de «How to read a book» no Youtube e só encontrei um vídeo, o qual apenas ensinava a ler manuais de electrodomésticos. Sendo assim, fico-me por escrever uns posts ou então uns versos para uma canção, pode ser que ganhe um Prémio Nobel da Literatura como o outro. Aposto que deve haver imensos vídeos que ensinam como fazê-lo.


Jaime Bulhosa